quarta-feira, janeiro 31, 2007

Um texto saindo do forno:





Carta de um louco ao amigo morto
(ou Ladainha Fúnebre)


Escrita ouvindo Send in the Clows



Criaram-te castelos tão altos que parece não ser possível transpô-los . Luta, Carlinhos, foge desse médico que diz que teu câncer não tem cura! Sai da casa da tua mãe, sempre tão amarga, te chamando de vagabundo, reclamando que teu salário não paga as quimioterapias nem os remédios nem o transporte até o hospital... Ora! Andei investigando tudo isso, pelo que soube, ela tem conseguido quase tudo gratuitamente.
Vamos, guri, tu não podes deixar tantas lágrimas presas, tanto sentimento abafado, tanto passeio adiado, tanto amor contido.
Ontem lembrei daquela festinha na Chácara das Pedras, na casa da Lya. Saímos completamente bêbados, lembra? Tu vomitaste o caminho inteiro de volta até o Bonfim. Eu Recitava Rimbaud enquanto dirigia o Passat do João (que estava apagado no banco de trás), tu dizia, no intervalo dos vômitos, que essa bicha “Rambô” só podia estar mamada de absinto mesmo para escrever tamanhas asneiras.
Vi Marcela, sabe? Estava bonita, montou um escritório no Moinhos. Disse que iria te visitar qualquer dia; pensei em dizer que não fosse, cheguei a abrir a boca para desaforá-la, afinal foram tantos males que ela te causara, mas desisti. Ela não é má pessoa e sei que tu ainda a ama.
Quero trazer-te mais perto, amigo, preciso que entenda que não vou deixar-te neste momento tão delicado. E saiba que não é por ti, é por mim! É egoísmo, eu sei, mas não posso perdê-lo, meu irmão. Amo-te muito.
Recordo-me, como se fosse hoje, embora já tenham se passado vinte e poucos anos, quando descobrimos o sexo, no seleiro do sítio da Vó Odete. Dizias que não entendia o porquê do meu tico ser maior que o teu e por que te dava tanto prazer beijar meus pés. Eu só ria e gozava, como eu gozava! Talvez por isso fiquei impotente aos trinta. A fonte secou. Aliás, muita coisa secou. Secaram os dias na nossa Porto Alegre, secou o amor que eu tinha por Antônio; o milharal do sítio da nossa infância, secaram as margaridas que você plantou no meu quintal, lembra?
As coisas, que vivemos juntos, não se apagam e são tão vivas... Nossas tardes na goiabeira do sítio, aquele cheiro forte da fruta, aquele barulho seco, quando alguma, muito madura, caía no chão. Assim somos nós, Carlitos (a Mercedes te chamava assim, né?), frutas amadurecendo, apodrecendo e se desprendendo da árvore. Mas tu não, meu caro. Ainda és fruta pendida.
Meu carinho.
Beijo na fronte, teu mano,
Valério.
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Abraços,
Sandro Flor®
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terça-feira, janeiro 30, 2007

Quando eu era criança...



Quando eu era criança, acreditava que tinha poderes mágicos: Se queria algo, fechava os olhos bem forte e repetia o que eu queria que acontecesse umas mil vezes. Nessa época me livrei de surras por causa das minhas peraltices, fui assaltado pela amizade de muita gente bacana, conquistei boas notas, ganhei os brinquedos que eu esperava, dentre tantas outras coisas... Tudo acontecia por encantamento. Aliás a palavra encantamento esteve presente na minha vida por muitos e muitos anos, porque a maioria dos acontecimentos positivos se sucediam, mas não se cristalizavam, então renovavam-se também minhas mandigas, minha magia, minhas preces, meus encantos.
Na passagem dos anos, muito na minha vida mudou e, com isto, eu também mudei. No entanto, não desisti da minha capacidade de acreditar no que eu quero. Mas hoje eu sei, que isso se chama FÉ.